Sonho e realidade

Sonho e realidade Merci Vous Belo Horizonte

Ana acordou de uma noite tumultuada, sonhos confusos e muita coisa para colocar no lugar. Para completar ligou e desligou o dispositivo “soneca”, umas três vezes, conseguindo quinze minutos de atraso. Apressada e sem outro recurso pulou da cama direto para o chuveiro e começou o seu banho interpretativo.

Primeiro eu sonhei com um castelo, deve ser porque fiquei lendo aquela revista enquanto esperava a análise. Esta é a melhor ducha do mundo. Depois teve um outro sonho estranho, parecia outra cidade, nada a ver. Preciso de um condicionador novo. E no meio do sonho apareceu a Ju, me dizendo alguma coisa. O que será que era? Aquela doida vive inventando moda. Sair dessa água quentinha vai ser difícil, vou desligar o chuveiro e enrolar na toalha. Tinha mais alguma coisa no sonho… com certeza tinha mais gente.

Além de um condicionador preciso de um secador de cabelo novo, esse aqui já deu o que tinha que dar. O que mais tinha no sonho? Ah, tinha um gramado, flores e um jardim… será que era do primeiro ou do segundo sonho? Toda vez que vou à terapia é a mesma coisa, sonhos estranhos. Acho que vou anotá-los. Anotar sonhos e coisas que faltam, condicionador, secador e uns grampos para o cabelo.

Enquanto terminava de aprontar para um longo dia de correria e muitas surpresas, Ana leu uma mensagem no celular que iria mudar tudo. “Bom dia Queridona! Sábado festinha no Retiro, quero virar balzaca em grande estilo. Piquenique no jardim com espumante e frescurinhas. A partir das 14h. Chegue cedo. Bjão.”

Meu Deus do céu! O aniversário da Ju e eu esquecendo. Putz, estou ficando doida mesmo! Preciso me apressar. Este portão que demora uma eternidade para abrir. Como esqueço o aniversário da minha melhor amiga? Mais de vinte anos de confidências e revelações e eu esquecendo. A reunião é daqui a vinte minutos. Ah! Que raiva dessa minha cabeça! Hoje ninguém me segura neste trânsito. Preciso comprar um presente muito especial para a Ju. O que vou comprar? Esta cidade está ficando pequena demais para tanta gente.

Descendo a Rua Espírito Santo, rumo ao escritório, as ideias na cabeça de Ana aumentam e ela encontra uma solução inesperada.

É ali, é ali! Em frente a Ah Bom e a Speciale… como é mesmo o nome? Minha reunião, vamos, vamos, abre sinal. Com este trânsito não consegui ver a loja, mas a Bia me disse que era ali. Uma loja de roupa com estilo Francês. Tudo que eu preciso e que a Ju também. Este manobrista foi a melhor contratação do prédio, além de educado é lindo. Na hora do almoço vou dar um pulo lá na loja e ver se encontro algo.

Bom dia Oswaldo. Deixa fácil pra eu sair na hora do almoço. OK!? Obrigada.

É isso! Merci Vous, obrigada a você, é o nome da loja. Merci Vous! Ufa, vai dar tempo, vou chegar na hora exata. O Dr. Evandro vai elogiar a minha pontualidade com aquela cara de deboche e responderei com um sorriso gentil. O que irei comprar para a Ju? Velho safado. Toda vez que bebe me canta. Nossa a Ju está fazendo trinta anos. Putz, daqui a três meses sou eu. Não quero pensar nisso. Os documentos, tudo certo, agora a reunião. Sapato eu dei o ano passado, acho que um vestido seria legal. A Ju merece. Bom dia Dr. Evandro.

Na hora do almoço Ana sai em busca do presente e a sua cabeça continua a mil. Nossa eu sou demais! Nem acreditei na minha apresentação. O Dr. Evandro ficou babando, deu vontade de falar com ele: viu, além de linda e gostosa, sou inteligente e muito bem preparada. O presente da Ju. Nossa e o sonho, o que será que foi mesmo? Devia ter vindo a pé, mas andar de salto não dá. Atenção, concentração! Uma vaga, uma vaga, uma vaga. Ah, isso sempre funciona! Vou estacionar aqui, meio quarteirão e estou na loja, depois almoço nas redondezas.

É aqui, lembro que a Bia falou de um portãozinho de ferro e a Merci Vous era no andar de baixo da casa, tipo um porão. Nossa que lindo! O sonho, era isso? Um piquinique no castelo. Que vestido lindo, que rendas! O manobrista, o Oswaldo, ele também estava no sonho. Preciso me concentrar, um presente para a Ju. Que lugar mais aconchegante. Nem sei o que escolher, vou comprar alguma coisa para mim também. Quantas delicadezas. O sonho, o castelo, o gramado era da casa da Ju, é isso! Será que tive premonição? É isso. É este! Meu Pai do Céu, este vestido estava no sonho. É a cara da Ju, vai ficar lindo no corpicho dela. Vou marcar uma sessão extra de análise.

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Encontros de sensibilidade

Ele precisava de novos ares, de colocar novidades na vida. Queria ir a Paris, havia escutado notícias do verão por lá, gente nas ruas, tempo de ver e ser visto. Só de imaginar a efervescência da Cidade Luz já ficava inquieto e a imagem dela vinha a sua mente, a paixão antiga estava em algum lugar da França.

Andando pelo bairro, livre em pensamentos, foi despertado por algo diferente em uma velha casa. Lembrava-se de outras modificações pelas quais a casa já passara e resistia com discrição e elegância há anos. O gradil baixo era o mesmo de sempre, mas uma grande placa no muro direito da casa lhe despertou a atenção. Passou pelo portãozinho de ferro e desceu as escadas, estava em outro espaço.

Foi recebido por uma mulher elegante, de sorriso vivo e que inspirava uma feminilidade discreta. Ela lhe explicou que ali era uma parte do seu sonho, um espaço que transportava as pessoas para outra cidade. A curiosidade lhe fez ir mais adiante e pediu para conhecer o lugar. Com um delicado gesto ela lhe convidou para entrar e experimentar a sensação de mudança. Enquanto andavam ela ia explicando suas inspirações.

Queria viver um pouco de Paris aqui. Sentir a “art de vivre”, aproveitar os momentos com todos os sentidos. As delicadezas que as vezes nos fogem no cotidiano, quero reuni-las aqui. Veja só este vestido, repare a delicadeza da renda, é Francesa, pode tocar, sinta a seda também.

O vestido já havia lhe encantado. Imediatamente lembrou da paixão antiga e até conseguiu vê-la usando-o. Agora já passeava por Paris e a pequena Torre Eiffel lhe ajudou na passagem, havia cheiros e gostos para completar a viagem. Em outro cabideiro, shorts, saias e um bolero de renda, delicadezas femininas. Novamente lembranças da paixão antiga, ela tinha um bolero muito parecido com aquele, era uma herança da Avó.

As sensações e as recordações se misturavam, sentiu uma emoção diferente, um prazer cheio de saudades, guardadas na memória e no coração. Ficou surpreso ao saber que isso também era proposital, ali as roupas têm memória. São feitas para ultrapassarem estações com as tendências atuais e referências eternas.

Saiu com um misto de saudosismo e alegria. Lembrou de roupas e de momentos, de uma pessoa especial, que se vestia com personalidade e elegância. Sentiu que aproveitou um pouco do “savoir fare” Francês, o saber fazer único, com tradição e autenticidade, abrigando o corpo com emoção e sensibilidade. Nas mãos uma sacola com o vestido, era a própria paixão antiga representada em rendas e tecidos femininos.

Merci Vous, era isso! Pensou ele. Merci Vous por trazer um pouco de Paris pra mim.

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